sábado, 15 de fevereiro de 2014

Lógica de todos os povos é revelada pela etnomatemática




Numa tribo do Amazonas, o convite para a festa consiste em uma medição de tempo feita a partir de pequenas tábuas de taquara. A cada dia, o cacique da aldeia convidada vira uma delas de lado. Quando a seqüência de tábuas chega a uma com a ponta diferente, ele sabe que é hora de preparar a comida para levar à festa. A próxima ponta, alcançada dias depois, mostra que é preciso começar a caminhada para se chegar a tempo ao evento. O convite se chamakatyba e pode ter mais de uma dezena de tábuas. Os índios waimiri-atroari, no entanto, só contam até cinco. A reportagem é do jornal Estado de S. Paulo, 5-11-2006.


Entender a etnomatemática é entender que não há uma só lógica, uma só racionalidade. O termo foi dito pela primeira vez por um matemático brasileiro chamado Ubiratan D'Ambrósiono fim dos anos 70. Ele passou a defender que a matemática que o mundo conhece prevaleceu porque veio com os povos conquistadores da Europa. E acabou se mostrando essencial para desenvolver a ciência e a tecnologia. "Mas isso não quer dizer que as outras matemáticas não servem para nada. Temos de recuperar raízes culturais, assim como se faz com as línguas, culinária, costumes", diz ele, hoje professor emérito da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp). O conceito de D'Ambrósio atualmente é pesquisado por cerca de 400 cientistas do mundo todo; metade é formada por brasileiros.

Entre as linhas de pesquisa, há as que se dedicam aos povos incas e sua contagem por meio de nós. Os incas não conheciam a escrita e acredita-se que agrupavam os quipos (nós) de acordo com algo parecido com o sistema decimal. Outras se voltam para a índia, onde, há séculos, mulheres desenham figuras com pó-de-arroz usando regras que lembram teorias recentes das linguagens gráficas da informática.

Apesar das comparações inevitáveis, a questão mais difícil da etnomatemática, segundo o pesquisador da Unicamp Eduardo Sebastiani Ferreira, é entendê-la sem levar em conta o raciocínio da cultura ocidental, da matemática aristotélica. Ele conta a história de uma tribo de Mato Grosso, os tapirapés, cuja unidade é o número 2. "Eles acreditam que nada nem ninguém sobrevive sozinho. Qualquer coisa lá é em par; isso muda completamente a lógica matemática", diz. Na tribo, cada criança que nasce ganha um amigo e os dois permanecem juntos até que um deles se case.




ORIGENS

D’Ambrósio e os outros pesquisadores da área defendem que manifestações matemáticas - como os bastões de Ishango de 20 mil atrás - não podem ser vistos como algo que deu origem à matemática ocidental. não houve uma evolução até chegar ao que hoje conhecemos; as ciências se desenvolveram paralelamente, garantem. "Elas não são a matemática primitiva, têm outra fundamentação. Se os povos não tivessem sido marginalizados e elas tivessem evoluído, chegariam a outras conclusões", diz.

A matemática clássica, que está nas escolas e universidades do mundo todo, teve origem na Grécia Antiga, incorporou conhecimentos numéricos indo-arábicos e começou a se espalhar com as conquistas dos séculos 15 e 16. "Hoje os chineses constroem aviões usando a matemática ocidental", completa D’Ambrósio.

"A matemática é uma só", discorda o presidente da Sociedade Brasileira de Matemática, João Lucas Marques Barbosa. Para ele, a etnomatemática é uma pesquisa ainda incipiente, ligada à história e que deveria ser estudada por antropólogos. "Quando se fala em matemática, se fala em resultados, em teoremas. Os incas, astecas a desenvolveram até um certo ponto", completa.

A polêmica talvez seja um motivo para que a etnomatemática ainda seja pouco conhecida nas salas de aula. Para Barbosa, ela ainda produz "resultados simples demais" para ser ensinada nas escolas. Segundo ele, na maior biblioteca da área do Hemisfério Sul, no Instituto Nacional de Matemática Pura e Aplicada (Impa), só há um título que faz referência à etnomatemática.

"Não se trata de substituir a matemática pela etnomatemática", afirma D’Ambrósio. Ele explica que os professores podem usar uma abordagem etnomatemática para despertar o interesse de seus alunos para a disciplina. Isso significa fazer com que conheçam as outras formas de pensamento lógico, como por meio da contextualização dos cálculos, valorizando a matemática presente na vida deles. Em testes internacionais, o Brasil tem o pior desempenho na disciplina.

"Assim como se estudam outras religiões, a cultura camponesa não pode ficar fora da escola", diz a professora da Universidade do Vale do Rio dos Sinos, no Rio Grande do Sul, Gelsa Knijnik, que pesquisa a etnomatemática dos sem-terra, com cálculos mentais e modos únicos de medir o lote. Outros pesquisadores estudam a etnomatemática dos negros brasileiros e já há tentativas de se incluir a lógica da capoeira e até dos jogos de búzios em escolas públicas da periferia.

O conteúdo clássico dos vestibulares, dizem professores de escolas particulares, dificulta a inclusão da etnomatemática. Há, no entanto, tentativas de estudar a matemática dos povos africanos no Colégio ítaca por exemplo, na capital. Para a professora do Colégio Santa Maria Inês Namour, a etnomatemática ajuda na tío falada interdisciplinaridade, já que mistura cálculos, geografia, astronomia, história. "A introdução da calculadora na sala de aula pode ser a etnomatemática da sociedade moderna", diz D’Ambrósio.

* Constante do portal IHU Online

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Ubiratan D'Ambrosio - Poços de Caldas, 1 de julho de 1969