sexta-feira, 9 de março de 2012

O INDIVÍDUO SÓ É PURA FICÇÃO



A realidade é constituída de fatos que antecedem o momento, que antecedem nossa própria existência, que antecedem a própria espécie. São fatos naturais, tais como o céu e os astros, a terra, os rios e as montanhas, os animais e as plantas. Junto com esses estão os fatos que resultam da intervenção do homem:

artefatos ― concretos  ― e mentefatos ― idéias, conceitos.

A realidade informa o indivíduo através dos sentidos. Claro, os sentidos são diferentemente desenvolvidos e aguçados de indivíduo para indivíduo. Cada indivíduo capta da realidade informações distintas e processa essas informações por um mecanismo até hoje não desvendado pelas ciências. Isso permite a cada indivíduo definir estratégias de ação. Essa ação necessariamente se dá na realidade, modificando-a. A realidade assim modificada informa o indivíduo no instante, e o  mesmo ciclo se repete. Esse é o ciclo vital de cada indivíduo.

Se o indivíduo fosse só, isso se esgotaria assim, com uma incessante modificação da realidade pela ação do indivíduo. O indivíduo só é pura ficção.

Mas sempre há um outro indivíduo, para quem o ciclo da vida também está acontecendo. Naturalmente, o outro recebe informações diferentes (sua visão e sua audição podem ser melhores ou piores) e as processa diferentemente (cada um tem uma cabeça). Conseqüentemente, partindo de uma mesma situação, o outro define outra estratégia de ação, e  parte para uma ação diferente que, naturalmente, também modificará a realidade. Em outros termos, numa mesma situação cada um exerce uma ação, definida pelo indivíduo.

A espécie humana desenvolveu uma poderosa capacidade de comunicação, o que  permite que um indivíduo amplie e mesmo modifique sua captação informações complementando-a com informações do outro. Esse compartilhar de informações não interfere com o processamento (que é pessoal, próprio de cada indivíduo), mas permite coordenar e mesmo modificar as estratégias de ação. Assim, se fosse só, cada indivíduo partiria para a sua ação. Mas após comunicação com o outro, ele toma conhecimento da ação do outro e coordena sua ação com a do outro. Ou contraria a ação do outro, gerando conflito. Ao coordenarem suas ações, ambos partem para uma ação comum ou para ações individuais de interesse mútuo.

Esse é o grande momento da espécie humana, a descoberta do outro e a troca com o outro, através da comunicação, de informações e de estratégias de ação.

Assim surge cultura, que leva indivíduos a reconhecer alguns fatos em comum, e a definir estratégias para ação comum. Cultura se manifesta através da possibilidade de indivíduos terem reações e comportamentos parecidos; compartilharem codificações para comunicação (linguagem), símbolos e mitos, e, conseqüentemente, valores.

*Trecho extraído de Educação para uma sociedade em transição, p. 63, 64, 65.

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Ubiratan D'Ambrosio - Poços de Caldas, 1 de julho de 1969