quinta-feira, 23 de fevereiro de 2012

CULTURA DE PAZ E PEDAGOGIA DA CONVIVÊNCIA*





Sinto-me muito honrado pelo convite. Na pessoa de Lia Diskin, agradeço a todos que tornaram possível este evento. Sua liderança vem-nos mostrando que aquilo com que sonhamos, que é um mundo de paz, pode tornar-se realidade. As ações geradas ou provocadas e apoiadas pela professora Lia e pela Associação Palas Athena fazem com que possamos acreditar que nosso ideal é factível, não é apenas sonho e esperança. Temos realizado muitos eventos, e acredito que esta é uma forma de unir nossas forças para tornar realidade nosso ideal de paz. Escolhi como tema para minha fala uma introdução à mesa que se seguirá, na qual vai-se falar de Cultura de Paz e Pedagogia da Sobrevivência – sem paz, não pode haver sobrevivência. E sobrevivência com dignidade é o ponto fundamental que quero destacar.

Começo com uma inspiração do Grupo Pugwash, uma organização denominada Pugwash Conferences on Science and World Affairs, cujo objetivo é reunir, em todo o mundo, cientistas, estudiosos e figuras públicas influentes que visam à redução do risco de conflitos armados e à cooperação e à busca de soluções para problemas globais. Este grupo foi criado em um momento crítico da história da humanidade, no qual o foco era o perigo de um confronto nuclear entre os dois grandes blocos liderados pelos Estados Unidos e pela União Soviética, o que resultaria no extermínio da civilização. Em 1955, Bertrand Russell e Albert Einstein lançaram o Manifesto Russell-Einstein, imediatamente adotado por um grupo de cientistas de vários países, todos detentores do Prêmio Nobel. Apesar de ter sido motivado pela Guerra Fria, pela possibilidade de um conflito nuclear, o Manifesto Russell-Einstein sintetiza uma filosofia de sobrevivência. O chamado Movimento Pugwash tornou-se uma liderança na luta pela paz. Fui convidado a tornar-me um membro do grupo em 1978. Destaco uma parte do Manifesto Pugwash que é um apelo ao bom-senso, traduzindo aquilo que estamos tentando fazer aqui hoje:

Perante nós se apresenta a possibilidade de um progresso contínuo em direção à felicidade, conhecimento e sabedoria, se assim escolhermos. Mas será que devemos escolher a morte, simplesmente porque somos incapazes de resolver nossos conflitos? Como seres humanos apelamos aos seres humanos: lembrem-se de sua humanidade e esqueçam o resto. Se vocês podem fazer isso, o caminho está aberto para um novo Paraíso; se não forem capazes, perante vocês se apresenta o risco da morte universal.

Apesar de a Guerra Fria não ter sido totalmente resolvida, já que ainda há o perigo de um conflito nuclear, o efeito do apelo foi positivo. Ainda estamos aqui – não com toda a felicidade, todo conhecimento e toda a sabedoria que poderíamos ter – trabalhando para que o ideal de paz total possa se realizar.

O paradoxo da civilização moderna. A civilização moderna é paradoxal. E esse paradoxo ganha grande intensidade a partir do século XVII, quando se consolida um sistema de conhecimento criado como o que se convenciona chamar ciência moderna, ancorado em um conceito de certeza e de verdade. Temos “certeza” daquilo que fazemos, pois resulta da verdade; temos “certeza” dos resultados de nossas ações, pois são apoiadas nos preceitos científicos. A ciência moderna julga-se infalível: tudo pode ser feito, há uma capacidade inimaginável de agir sobre o planeta e sobre a vida, interferindo e criando. Hoje, praticamente qualquer órgão do nosso corpo pode ser substituído. De certo modo, a vida pode ser continuada permanentemente, chegando a uma situação em que uma pilha adequadamente utilizada pode fazer funcionar órgãos artificiais que substituem os nossos órgãos naturais. Vamos até a Lua, estamos a caminho de Marte e de outros planetas. Mas, ao mesmo tempo, há uma total incapacidade de manter os elementos básicos de sustentabilidade da vida em nosso planeta, há incapacidade de convívio entre membros da espécie. É paradoxal que façamos coisas tão maravilhosas, surpreendentes, e sejamos incapazes de uma convivência mínima em nossa família, em nossos bairros, em nossa cidade, em nossa comunidade, isto é, parece ser impossível viver em paz – e sem paz, não há possibilidade de continuarmos vivos. É uma questão de sustentabilidade.

Respeito, solidariedade e cooperação.  Jamais houve, como agora, uma ameaça à sobrevivência da humanidade. Paradoxalmente, a ciência moderna e a maravilha tecnológica que daí resultou fornecem os instrumentos materiais (armas, bombas, equipamentos e tecnologia) que ameaçam a sustentabilidade da vida no planeta;  e os instrumentos intelectuais (ideologias, filosofias, ideias, partidarismos) que podem causar o extermínio da vida no planeta. O que nos dá uma grande esperança é que essa formidável ciência moderna e a tecnologia podem nos dar os elementos necessários para que o planeta seja habitado por uma humanidade feliz, provida de uma ética maior de respeito, de solidariedade e de cooperação, elementos necessários para evitar o extermínio da civilização no planeta. Respeito, solidariedade e cooperação são os ingredientes que podem fazer com que nosso sonho de uma humanidade feliz se concretize.

Cultura de extermínio. Vivemos uma cultura de extermínio da natureza,  de indivíduos e de grupos socialmente  organizados como famílias, comunidades, agremiações, nações. Há uma cultura de aceitação e de justificação do extermínio corporal e emocional de indivíduos (alguém que “mereceu” ser executado, “mereceu” ser eliminado), de conflitos grupais, de destruição devoradora da natureza e de guerras. Essa cultura do extermínio é tratada como “normal”, e há uma racionalização, uma racionalidade que a justificam. É urgente tornar inaceitável a cultura do extermínio. Temos que passar da Cultura de Extermínio para a Cultura de Paz.

Dimensões da cultura de paz. A Cultura de Paz deve contemplar a paz total, isto é, paz nas suas várias dimensões: paz individual, paz social, paz ambiental, paz militar.

Paz individual, ou paz interior, significa o indivíduo em paz consigo mesmo: o indivíduo pode deitar-se, pôr a cabeça em um travesseiro e dormir tranquilo, não precisando recorrer a drogas como caminho para escapar da realidade de suas ações, da frustração de desejos e ambições não realizadas, e  da realidade exterior de brutalidade. A paz social resulta do reconhecimento de que o outro indivíduo tem necessidades, ambições, vontades, e que deve ser respeitado; e da solidariedade com este indivíduo na satisfação de suas necessidades e vontades possíveis.

A paz social é fundamental, mas é óbvio que sem o ambiente, sem a natureza, sem ar, sem água, sem alimentação não há sobrevivência. Necessitamos também de uma paz com o ambiente, não podemos viver em conflito com o ambiente. Não é necessário elaborar muito para concluir que sem um ambiente sadio não pode haver continuidade da espécie. Por fim, consideramos a paz no sentido militar, que vem sendo violada desde a antiguidade e que provoca a ruptura da paz individual, da paz social e da paz ambiental. Se não contemplarmos a questão da paz na sua multidimensionalidade, estaremos nos iludindo, e este é um ponto fundamental.

Sem paz não haverá sobrevivência. Educar para a paz é educar para a sobrevivência da civilização deste planeta, da humanidade, da espécie – mas a sobrevivência de todos com dignidade. Este é um ponto crucial: a dignidade de o indivíduo ser o que ele é, de poder aderir a um sistema de conhecimentos, de conhecer suas raízes, suas relações históricas, emocionais, sua religião, sua espiritualidade. Um indivíduo é diferente do outro, não há como negar que nós todos somos diferentes. Preservar essa diferença é algo fundamental para que a gente possa falar em uma sobrevivência com dignidade.

Conflito não pode se transformar em confronto. Conflito é o estado provocado por reações distintas, pois os indivíduos são diferentes, e reagem diferentemente a estímulos da mesma realidade. Exemplo: um indivíduo que é vidente vê a realidade de uma forma, enquanto outro que não tem visão vê essa mesma realidade de forma diversa. A realidade é a mesma, mas cada um vê essa realidade diferentemente, recebe as informações dessa realidade de maneira distinta. Muitas vezes, o fato de a realidade ser vista diferentemente provoca ideias, julgamentos, interesses, opiniões diferentes.  Maneiras diferentes de ver, sentir, reconhecer a realidade podem resultar em ideias, julgamentos e ações conflitantes. Todas as relações humanas trazem intrínsecas a elas um conflito. Mas o conflito não pode se transformar em confronto. Podemos conviver com conflitos conceituais e de ideias, de interesses, de julgamento, de opiniões, mas o confronto destrói.

Confronto é choque, é enfrentamento, é guerra, com o objetivo de subordinar e mesmo eliminar uma das partes em conflito. A eliminação do outro, do diferente acabaria com o conflito. Por exemplo, os confrontos entre torcidas de times futebol seria resolvido facilmente se houvesse apenas um time. Mas não haveria mais jogo. Pode-se resolver qualquer conflito eliminando o outro, penalizando-o de maneira desencorajadora ou transformando-o, o que equivale a eliminá-lo. É urgente e prioritário evitar que o conflito gere confronto, mas não 48recorrendo à eliminação de uma das partes conflitantes, e sim a partir do que denominamos resolução pacífica de conflitos. Este é o caminho para a paz, que pode evitar a recorrência do confronto.

Não haver mais conflito no futebol porque só há um time; não haver mais conflito religioso, porque todos adotam a mesma religião; não haver mais conflito na ciência, porque todos seguem o mesmo tipo de conhecimento científico; não haver mais conflito filosófico, porque todos estão seguindo a mesma filosofia. Tudo isso significa a negação do conceito de ser humano, com vontade própria e criatividade.

Acredito que lutar pela paz e pela sobrevivência só faz sentido se preservarmos a dignidade do ser humano, com base na convivência entre os diferentes, não na homogeneização da espécie. Como diz  Lois Lowry, “Não se trata de acabar com o conflito, pois isso pode representar a homogeneização da civilização.”  Devemos ser capazes de conviver com aquele que é do outro time, que é do outro sexo, que é da outra cor, que fala outra língua, que segue outra religião. A força da convivência entre diferentes é aquilo que chamamos dignidade do ser humano, cada um mantendo-se como é, sendo o que é.

Educar para a paz.  Trata-se de educar para a paz e a sobrevivência, baseadas na convivência entre diferentes. Esse é o nosso grande desafio. Na Educação para a Paz e para a Sobrevivência é de fundamental importância o ensino de história. A história nos mostra que, muitas vezes, mesmo acordos e tratados de paz assinados não conseguem resolver os conflitos, geralmente postergam o confronto, que retorna com mais violência. Indico o livro editado por Elizabeth A. Cole (1999), mostrando vários exemplos da história em que houve um acordo e todos festejaram, e passaram a comemorar a data na qual o acordo de paz foi assinado. Mas são atos até certo ponto inócuos, porque não conseguem resolver os conflitos. A retomada do confronto é latente.

O processo de reconciliação e os armistícios e tratados, após os quais as partes envolvidas tentam funcionar normalmente, muitas vezes não conduzem a uma paz duradoura. O papel da educação é evitar a recorrência do confronto e da violência gerados muitas vezes por tensões, antagonismos, desconfiança e medo, resultado de memórias de sofrimento, de destruição e de morte.  São exemplos notáveis de armistícios nos quais se logrou o cessarfogo o chamado Tratado de Versalhes (1919) e os diversos acordos entre israelenses e palestinos, entre o ETA e o governo da Espanha, e entre as nacionalidades que compunham a antiga Iugoslávia. Mas os conflitos latentes não foram resolvidos.

Há confronto não somente entre nações/estados em guerra, mas também entre classes sociais, entre os homens e a natureza, e no próprio indivíduo, que não consegue resolver seus conflitos internos, psicoemocionais. O conflito deve ser resolvido de outra forma. Entre homens e natureza, por exemplo, não significa que não vamos mais consumir, mas o consumo pode ser feito de outra forma; e o próprio indivíduo que tem seus conflitos internos, de ordem psicoemocional não pode tentar resolvê-los com drogas, tranquilizantes e outra forma de escape, como a violência.

O que faz com que a violência esteja permeando nosso dia a dia, nosso cotidiano? Lia Wells, uma jovem professora de Washington, DC, emocionou-me com uma frase de grande simplicidade: “Violência vem de medo, medo vem de incompreensão, e incompreensão vem de ignorância... combatemos a ignorância com a educação.”

Educação é a chave para abrirmos a porta que nos conduz a uma realidade de paz. A Década da Paz representou a grande oportunidade para assumirmos nossa responsabilidade mútua na Educação para a Paz. Sejam empresários, cientistas, pesquisadores, o que for, somos todos educadores!

*Fórum realizado com a Professora Lia Diskin constante da publicação “Cultura de Paz: da reflexão à ação” – Unesco, 2010
- Sobre a Professora Lia Diskin, acesse aqui


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Ubiratan D'Ambrosio - Poços de Caldas, 1 de julho de 1969