sexta-feira, 20 de janeiro de 2012

TODOS OS SONHOS DO MUNDO (Um relato sobre Ubiratan D'Ambrosio)


Ubiratan D'Ambrosio: conversas, memórias, vida acadêmica, ....
Wagner Rodrigues Valente (org.)
Annablume Editora



O livro acima citado não contém o texto que está exposto logo a seguir, sendo também uma outra fonte sobre a vida e a obra de Ubiratan D'Ambrosio. Ao final, o leitor encontrará links para chegar a esta públicação e mais coisas. Boa leitura!

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TODOS OS SONHOS DO MUNDO*

Uma apresentação pessoal de 
Ubiratan D’Ambrosio

Alexandre Silva D’Ambrosio
Beatriz Silva D’Ambrosio

Não sou nada.
Nunca serei nada.
Não posso querer ser nada.
À parte isso, tenho em mim todos os sonhos
do mundo.

(Tabacaria, Álvaro de Campos, 1928)

A estrofe de abertura do poema Tabacaria, de Fernando Pessoa (alias Álvaro de Campos), talvez represente a melhor síntese do pensamento de Ubiratan D’Ambrosio sobre nosso papel no mundo, como seres humanos e educadores.  Nessa curta estrofe, Fernando Pessoa captura alguns dos preceitos mais importantes da filosofia de Ubiratan: a  humildade perante a diversidade do universo; a  consciênciade que nossa visão de mundo é apenas uma, dentre inúmeras compreensões possíveis; e a coragem de perseguirmos nossos sonhos.   Ademais, ao passar seu conhecimento aos seus semelhantes – pela educação – o homem transcende seus limites, sua mortalidade, sua condição de ser nada. Esses preceitos, aos quais Ubiratan algumas vezes se refere como a “humildade do saber”, formam a base de seus ensinamentos e alicerçam seu trabalho.  Pois, é nessa humildade que reside a aceitação do outro, das formas alternativas de compreender o mundo, novas culturas e idéias.

Enfim, essa postura permite ao educador compreender seus alunos, seus sonhos, aspirações e o ambiente que os cerca.  Dessa postura emanam os princípios de que todo ser humano tem algo a contribuir, de que todos merecem respeito e de que para cada um existe um papel importante a desempenhar na sociedade.  Dessa visão emana sua fé no ser humano e a esperança de que a educação, quando baseada nesses princípios, pode levar a humanidade a realizar seus sonhos. Os conceitos de  etnomatemática e transdisciplinaridade – ambos englobando a idéia da diversidade dos ambientes nos quais se desenvolve o conhecimento – são provavelmente as principais referências na obra de Ubiratan.  Nesses conceitos estão embutidas as propostas de Ubiratan de introduzir, na educação, a valorização do indivíduo no contexto de sua própria cultura, buscando com isso recuperar a “humanidade” e a “ética” como valores a serem ensinados nas escolas.

Essa postura nos conduz a um modelo de educação voltado para paz, tolerância e, sobretudo, esperança e fé no amor ao próximo. A crença no amor ao próximo – essência do próprio ato de “educar” — está presente em todos os ensinamentos de Ubiratan.  Como seus filhos, podemos melhor oferecer nosso  testemunho sobre essa crença.  Ao sermos convidados para escrever esta apresentação, concluímos ser mais adequado falar do homem, nosso Pai, ao invés de discutir sua obra e sua carreira de professor.  Porém, é impossível falarmos de nosso pai – o Daddy, como ainda o chamamos – sem descrevermos também o professor, até por serem papéis inseparáveis na vida desse homem.  Nosso depoimento, portanto, é extremamente pessoal, baseado não em estudos acadêmicos de sua obra, tampouco na experiência de seus alunos, mas, sobretudo, na experiência de termos partilhado, na intimidade, da evolução de suas idéias e aspirações.

Impossível imaginar Ubiratan sem a presença marcante de nossa mãe, sua “cara-metade” Maria José, força motriz de sua carreira, bússola e leme na sua evolução.  Assim como Ubiratan incorporou as noções de respeito e amor ao próximo a seus ensinamentos sobre educação, foi Maria José quem primeiro ensinou – a ele e a nós – esse preceito fundamental como proposta de vida.  Não há momento na carreira de Ubiratan no qual Maria José não esteja presente, questionando e ajudando-o a aprofundar cada idéia, cada teoria.  Na verdade, Maria José esteve presente na vida de Ubiratan antes mesmo do início de sua carreira, pois eram vizinhos no bairro da Pompéia, em São Paulo, durante a adolescência.

Portanto, são 50 anos de casamento e tempo ainda maior de convivência.  Como advogada, professora, estudiosa de literatura comparada, Maria José foi muito mais que uma musa inspiradora; sem dúvida, o trabalho de Ubiratan não teria a mesma sensibilidade – tampouco profundidade – sem a parceria intelectual e o “sounding board” representado por sua esposa e companheira de vida, Maria José. São fortes as lembranças de nossos pais conversando animadamente sobre idéias, impressões, viagens e leituras.  Essas conversas, das quais também participávamos, ocorriam diariamente em volta à mesa de jantar, logo após o aperitivo, rotina inabalável de união familiar.  Para nós, grandes descobertas sobre filosofia, história, política, arte e educação ocorriam diariamente em volta à nossa mesa. Inesquecíveis os relatos sobre as visitas de Ubiratan a Bamako, capital do Mali.

Foi durante suas experiências no Mali, país ao qual dedicou dez anos de carreira como parte de um projeto patrocinado pela Unesco, que Ubiratan primeiro encontrou os fundamentos para muitas de suas idéias sobre educação. Lá pôde, de forma extrema, conhecer a arrogância dos modelos de educação trazidos pelos colonizadores, sem conexão com a realidade das culturas locais, perpetuando uma política de exclusão social.  Lá pôde descobrir as estruturas de conhecimento científico inerentes às próprias tribos, com suas formas peculiares de resolver problemas complexos, embora desprezados pelos modelos convencionais de ensino.  Lá pôde desenvolver suas idéias sobre as formas de trazer a escola para esses locais, tornando a educação construtiva ao abraçar outras estruturas de conhecimento científico, praticadas por culturas diversas.  Enfim, lá iniciou suas reflexões sobre a educação multicultural e a ética da diversidade, culminando nas propostas de educação contidas em seus inúmeros trabalhos.

Quando crianças, pudemos vivenciar algumas dessas experiências diretamente.  Em 1970, Ubiratan levou a família para passar várias semanas com ele no Mali. Beatriz tinha dez anos e Alexandre apenas oito.  Apesar da idade, o envolvimento com o povo, tradições, cultura, arte, música e comida locais, marcaram profundamente nossa formação e nos fez compreender, através de uma experiência viva, o verdadeiro sentido de diversidade cultural. A mudança da família para o Brasil em 1972 foi também marcante, tanto na carreira de Ubiratan quanto na vida da família.  Depois de quase dez anos morando na costa leste dos Estados Unidos, viemos ao Brasil para morar em Campinas, onde Ubiratan contribuiu para a construção do Instituto de Matemática e Estatística e Ciência da Computação – IMECC – da Unicamp, do qual foi Diretor durante oito anos. Era uma fase estimulante na história política do Brasil, com a promessa da abertura democrática e um fervor intelectual sem precedentes.

O entusiasmo de Ubiratan pelos projetos de seus alunos contagiava, já naquela época, toda a família. Ouvíamos suas palestras, participávamos dos congressos e simpósios e conhecíamos seus estudantes e amigos.  De tão envolvido com os projetos, Alexandre, aos 11 anos, jovem desenhista, foi convidado pelos alunos de Ubiratan na Unicamp a ilustrar alguns livros para projetos de educação matemática. Da década de ‘70 remontam os debates sobre uso de calculadora na escola e o advento do computador. Ubiratan foi quase profético ao antecipar a chegada da tecnologia na educação, prevendo sua forte onda transformadora.  Até hoje ecoam seus argumentos em defesa do uso da calculadora na sala de aula, na aceitação da tecnologia como algo construtivo, na medida em que permite uma educação voltada à valorização do pensamento, ao invés da memorização.

Dentre os inúmeros eventos ocorridos durantes as décadas de 70 e 80, dois se destacam em nossas lembranças, sobretudo pelas personalidades que reuniram no Brasil.  A primeira forte impressão dessa época foi o Congresso  Interamericano de Educação Matemática – IACME – realizado em Campinas em fevereiro de 1979.  Ubiratan organizou o evento, mas toda a família participou, partilhando de sua vibração, assistindo às palestras e interagindo com os congressistas e colegas. Da mesma forma, partilhamos do entusiasmo de Ubiratan na organização das reuniões do Movimento Pugwash, uma das quais ocorreu em Campinas em 1980, reunindo alguns dos mais importantes cientistas do mundo, num evento sem precedentes no Brasil. Nossa infância é repleta de lembranças de reuniões festivas em casa, com a presença de alunos, cientistas, artistas, diplomatas e ministros de Estado, de países os mais diversos.

À época, nossa tenra idade não permitia compreender a mística envolvendo  grandes gurus da ciência, como Hassler Whitney, Bernard Feld, Marshall Stone, Dirk Struik, Gail Young, dentre muitos outros.  E, justamente por não compreendermos a mística, não sofríamos da timidez do deslumbramento, tratando-os como amigos próximos, como de fato eram. Mas a verdadeira mística para Ubiratan sempre veio de seus alunos.  Para Ubiratan, os alunos são sempre sua inspiração, realização e alegria.  É com seus alunos que ele constrói suas idéias e realiza sua obra.  O debate com os alunos, a vontade de conhecer suas idéias e aspirações, são para Ubiratan a principal razão para viver.  E não há, para ele, uma idéia de aluno que não mereça ser ouvida, aprofundada e perseguida.

Ubiratan sempre  acreditou em seus alunos, sempre se dispôs a apoiá-los em seus sonhos e ideais. Até hoje testemunhamos exemplos de alunos  que, em meio a uma tese de mestrado ou doutorado, telefonam em sua casa a qualquer hora, ou vêm visitá-lo. Pedem orientação, choram, muitas vezes querem desistir.  Sempre de portas abertas, Ubiratan os recebe em sua biblioteca, os entusiasma, os incentiva. Invariavelmente, consegue encorajar cada aluno a redescobrir a grandeza da idéia que deu origem à sua tese e reavivar a paixão que primeiro os motivou, levando-os a retomar a busca de seus sonhos. Talvez por esse motivo Ubiratan sempre tenha mencionado a carreira de Professor como a mais digna das profissões.  Todas as demais são meras variantes dessa “profissão fundamental”.  Uma vez, Beatriz indagava sobre o melhor título para chamar um personagem importante que nos visitava – seria Presidente? Senador? Governador?  Ubiratan sugeriu usar sempre o título de “Professor”.  Segundo ele, com esse título não haveria erro, pois não há título mais lisonjeador para um professor do que ser assim chamado.  E, por essa influência, todos na família – esposa e filhos – exercemos, em algum momento de nossas carreiras, o magistério.

Impossível falar de Ubiratan sem mencionar sua fascinante biblioteca.  A biblioteca de Ubiratan – hoje com quase 20 mil volumes – foi construída ao longo de sua carreira.  A cada viagem – e eram muitas! – nosso pai voltava carregado de livros (além dos presentes para as crianças, naturalmente).  Ubiratan abria as malas – havia uma mala dedicada aos livros – e retirava, um a um, os tesouros, explicando o conteúdo de cada um deles.  Os livros versavam sobre tudo! A biblioteca, construída livro a livro, sempre nos fascinou por sua diversidade.  Acreditávamos que as respostas para todas as indagações do mundo estivessem disponíveis ali, naquela biblioteca, dentre os mais variados títulos. Além da matemática, ali podemos encontrar vastas coleções de política, sociologia, direito, filosofia, história, paleontologia, religião, arte, medicina, anatomia, arquitetura, literatura, poesia, lingüística, dentre outros.  De Sócrates a Habermas, de Dante a Ezra Pound, todas as obras ali reunidas promovem a idéia de que todas as formas de conhecimento, sem discriminação ou censura, conduzem a uma forma de verdade. Sobre sua biblioteca, Ubiratan muitas vezes nos disse: “Estas são nossas fazendas, nossas cabeças de gado”.  Pois, se jamais possuímos propriedades e latifúndios, sempre tivemos a percepção da imensa riqueza intelectual daquela vasta coleção!

O amor pelo conhecimento é, sem dúvida, o fundamento da carreira de um mestre e professor.  Nosso pai sempre fez do conhecimento – e da generosidade com que o partilha – seu princípio vital e sua mais importante obra.  As personalidades com as quais convivemos, as inúmeras viagens, o gosto pelo conhecimento eclético...  Tudo isso marcou nossa percepção do mundo e, certamente, a percepção que temos de nosso pai.  Sem dúvida, a forma de conduzir sua vida e carreira ajudou Ubiratan a esculpir suas idéias, sua sensibilidade e sua apreciação da diversidade, fundamento de suas formas de pensar. Por todos esses motivos, ao redigirmos a apresentação de um Festschrift dedicado a nosso Pai, o verso de Fernando Pessoa soa deveras apropriado.  De fato, nosso Pai sempre teve – e partilhou com todos à sua volta – todos os sonhos do mundo.  E, ao perseguir esses sonhos e ajudar os outros a fazê-lo, tem construído uma vida, uma família e uma obra.

São Paulo, Agosto de 2007

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Notas

I - Sob o aspecto histórico, nossa apresentação será  menos completa que o excelente artigo do Prof. Wagner Rodrigues Valente.  Ao contrário do Prof. Valente,  não citaremos fatos ocorridos antes dos anos sessenta (quando nascemos). Vide: Wagner Rodrigues Valente,  “Ubiratan D’Ambrosio: Algumas Facetas de um Matemático e Educador”, in Ubiratan D’Ambrosio, Ed. Annablume, São Paulo, Brasil, 2007.

II -  Movimento Pugwash, fundado em 1944 por Albert Einstein e Bertrand Russell, reúne renomados cientistas de todo o mundo, mobilizados em prol da paz mundial e  desarmamento nuclear.  Em 1995, o Movimento Pugwash, juntamente com seu presidente de honra Joseph Rotblat, foi agraciado com o Prêmio Nobel da Paz.


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Um comentário:

  1. Sempre admirei o Professor Ubiratan D'Ambrosio e com este depoimento aumentou mais ainda a minha honra de tê-lo conhecido, de tê-lo como professor, como coordenador e colega do grupo de etnomatemática e como mentor/consultor do grupo de Magistério Indígena na USP em 2002/2003. A admiração que tenho se estendeu a todos os membros da família como o pai, a esposa e os filhos. Também sou professora de Matemática (já aposentada a 14 anos) mas continuo estudando a obra do Professor Ubiratan. Parabéns por este blog.
    Mary Lucia Guimarães Pedro

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Ubiratan D'Ambrosio - Poços de Caldas, 1 de julho de 1969