domingo, 12 de dezembro de 2010

Museus e Ciência

 
Ubiratan D'Ambrosio


Etnomatemática
PRODUÇÃO DE 1999
Ubiratan D’Ambrosio
O PAPEL DO MUSEU NO PROCESSO DE
DIVULGAÇÃO DA CIÊNCIA
RESUMO
Após um breve exame do papel dos museus na preservação e elaboração do conhecimento, discute-se a situação especial dos museus de ciência. Examina-se a seguir as formas variadas de museus, como centros de ciência, parques temáticos e turismo ecológico, e as possibilidades de inovação no ensino de ciências.
PALAVRAS-CHAVE
museus, museus de ciências, ensino de ciência
The role of museum in tehe processof diffusion of science
Abstratct: After a brief overview of the role of museums in the preservation and elaboration of knowledge, it is discussed the special situation of science museums. The it foil lows an exam of several forms of museum, such as science centers, thematic parks and ecological tourism, and the possibilities of innovation in science
KEY WORDS
museum, science museums, science education





A criação e fundação de novos museus, das mais diversas modalidades, e o número crescente de visitantes, é um fato reconhecido internacionalmente. O conceito popular de museu associado a um depósito de coisas do passado é agora complementado por um conceito de museu dinâmico, onde se vai não só para apreciar, mas para exercer crítica e criar. Os museus de arte, talvez os mais numerosos, exibem um atelier onde jovens, adultos e idosos encontram um espaço criativo inspirador. Igualmente populares são os museus históricos e os museus de ciências. Os primeiros, tradicionalmente focalizados no orgulho nacional, hoje são freqüentemente focalizados na crítica a uma ordem social e política indesejável e muitas vezes associados a propaganda político-partidária. Os museus de ciências, com uma longa história, são hoje dinâmicos e muitas vezes complementados por parques temáticos. E a grande novidade dos museus virtuais começa a se definir. O número de museus se multiplica, nas suas várias modalidades, e os reflexos de sua presença na sociedade são estudados com crescente intensidade, despertando o interesse de acadêmicos das várias áreas [1].

Como coleções de objetos para deleite e estudo, têm-se notícia de jardins botânicos e zoológicos desde os assírios em 2000 a.C. e no templo de Karnak, no Egito, em 1500 a.C. Mas os museus começam a ter características mais próximas ao que se entende hoje na antigüidade grega. A mitologia grega se refere às Musas, que são filhas de Zeus, como aquelas que desejam instruir e fixar o espírito sobre uma idéia ou uma arte, e o mouseión, é o templo das Musas. Da Antigüidade grega lembramos o mouseión de Alexandria, mantido pelo Estado, onde estavam reunidos objetos vindos de todas as partes do Império. Uma verdadeira academia, onde filósofos se reuniam e novas idéias floresciam. Curioso lembrar a etimologia de academia: héka = distante + demos = povo.


No Renascimento, os museus se tornaram se tornaram gabinetes de curiosidade, onde se podia apreciar objetos raros, antigüidades e desenvolver uma forma de deleite com oportunidades de descobrir e entender um mundo que se tornava global. Geralmente propriedade particular de aristocratas e clérigos, os museus se tornaram uma forma de patronizar artistas e intelectuais. Tiveram grande expansão no século XVIII, mas, obviamente, não abertos ao povo. Com as revoluções sociais do final do século XVIII, particularmente a Revolução Americana e a Revolução Francesa, os museus iniciaram uma nova fase de se tornarem acessíveis ao povo. A percepção das possibilidades políticas oferecidas pelos museus, sobretudo museus históricos ressaltando valores nacionais e um conceito emergente de patriotismo, foi o fator principal na expansão de museus abertos ao público no curso do século XIX e principalmente século XX. Associa-se a isso a glória dos impérios, estimulando expedições científicas para todas as partes do mundo, e o grande desenvolvimento da ciência e da tecnologia durante o século XIX. E criam-se os modernos museus de ciência e de tecnologia. A expansão dos sistemas educacionais no início do século XX, com ênfase no ensino de ciências, foi um fator importante para o surgimento de museus focalizando estudantes e a popularização das ciências.

O papel de museus é evidente na observação do educador Mihaly Csikszentmihalyi: "Escolas, mesmo sendo importantes, contribuem apenas uma fração relativamente modesta para a educação dos jovens" [2]. Particularmente no ensino de ciências, os museus representam um espaço descontraído, ágil e não subordinado aos rigores programáticos das escolas.

A escola é um espaço onde jovens, de diferentes raízes culturais e sociais, se reúnem para adquirir conhecimento e modelos de comportamento. Particularmente importante é a possibilidade de socialização que oferecem as escolas. Via de regra, as escolas têm expectativas com relação aos alunos que resultam de interesses das mantenedoras, sejam elas públicas ou privadas. Esses interesses se manifestam na organização curricular, centrada em conteúdos programáticos, e em avaliações, geralmente na forma de testes padronizados. Muitas escolas abrem um espaço nesse modelo para experiências fora da escola, tais como visitas a museus e excursões.

Esse espaço que poderíamos chamar "fora da escola" deveriam ser privilegiados e reservar o espaço escolar tradicional para exercícios críticos, com foco na cidadania. Em outras palavras, o ensino deveria ter como ponto de partida a experiência em ambientes distintos de uma sala de aula, associado ao fazer. A aquisição de conhecimento deveria ter como ponto de partida mercados, praças e fábricas. Naturalmente, a utilização desses espaços sociais como espaços escolares, sobretudo no ensino fundamental e médio, é extremamente difícil, sobretudo nas cidades. Os museus e centros de ciências oferecem espaços similares onde a prática escolar pode ser exercida. Metaforicamente, os museus seriam canteiros de obras e serviços para a prática educacional.

Os museus e centro de ciências podem ter como foco atividades experimentais e de solução de problemas lidando com objetos reais, uma aprendizagem baseada na convivência com práticas efetivas e na ativação de todos os sentidos e memórias de situações anteriores. É a oportunidade de praticar o novo e de encarar o desafio intrínseco a essa experiência. Ora, a escola oferece um espaço passivo de ouvir e ver conhecimento velho, congelado, com a esperança que o aluno será capaz de descongelar esse conhecimento para aplicá-lo a situações novas.

Hoje, mesmo jovens menos privilegiados são expostos a uma enorme variedade de experiências numa multiplicidade de situações e de meios. O aprendizado tradicional não satisfaz às ansiedades desses jovens.

Qual seria uma nova dinâmica para a escola? Eu vejo a escola voltada para um ambiente próximo a uma assembléia de aprendizado, onde idéias, originárias de experiências e situações fora da aula, são expostas pelos alunos [palestrantes], discutidas pela classe e o professor servindo como moderador. Breves exposições de natureza teórica serão, ocasionalmente, inseridas pelo professor nas discussões. Criar um mecanismo de condução dessas assembléias, discutida e acordada pelos participantes, é um importante aspecto da educação. A sociedade moderna exige, mais e mais, participação ativa na elaboração do aprendizado. O conhecimento congelado, já elaborado, não mais será conduzido via um professor detentor desse conhecimento, apoiado na autoridade do professor, como era característico da educação de antanho. Hoje, o conhecimento do professor é, particularmente em ciências, desatualizado. Igualmente o dos livros. Os meios mais ágeis de disseminação de informação só tem valor quando ativados em função de situações de demanda.

O ponto mais convidativo à crítica nessa minha proposta se refere ao conhecimento básico. Esse é argumento freqüentemente usado por aqueles que defendem uma educação tradicional, baseada na assimilação, pelo aluno, de conhecimento propedêutico, isto é, que se justifica por servir para uma etapa seguinte [3].

Naturalmente, a organização das disciplinas deverá ser liberada de um seqüênciamento que a tradição impôs. Supostamente seguindo uma lógica de encadeamento, maior atenção é dada a esse encadeamento do que ao fato ou ao fenômeno que é foco da discussão naquele momento.

A educação associada a museus não se limita a jovens. Os museus oferecem uma oportunidade única de educação, particularmente em ciências, para adultos. A principal vantagem sobre os cursos mais usuais de popularização da ciência para profissionais e, o que é muito comum, para a terceira idade, é o fato de cursos oferecidos no museu permitem o adulto aprender no seu próprio ritmo, num ambiente que evoca recordações ou fantasia e que recorre a múltiplas emoções e estímulos sensoriais. A não existência de um programa a ser cumprido dá à experiência possibilidades de se ramificar para várias áreas de conhecimento. Em muitas comunidades, a criação de um museu de ciências representa um acontecimento cultural na cidade, abrindo inclusive as portas da universidade para a comunidade em geral [4].

Particularmente importante é o aspecto multicultural que deve permear a organização de um museu. Na sua vocação, o museu, especialmente o museu de ciências, deve ser transcultural e transdisciplinar. O museu focaliza fatos e fenômenos não como a culminação de princípios e verdades básicas aceitas. Ao contrário. Esses princípios e verdades são a conseqüência de uma análise crítica de uma multiplicidade de fatos e fenômenos, o que caracteriza a transdisciplinaridade.

Neste momento de crescente utilização de internet , os museus oferecem novas possibilidades. A ida ao museu se torna muitas vezes dispensável para a utilização de seu acervo. Isso cria um grande espaço para criatividade. Participar da obra criada, penetrando nos seus detalhes e muitas vezes rearranjando o que é terminado, oferece inúmeras possibilidades cognitivas. Mesmo do ponto de vista histórico, entender os processos criativos de outras gerações é altamente estimulante, particularmente para o estudante de ciências [5].

Nos últimos tempos têm surgido algumas variantes dos museus de ciências, como o aproveitamento de espaços empresariais superados, os centros de ciências, os parques temáticos e o turismo ecológico.

O aproveitamento de espaços empresariais superados, como armazéns, estações, edifícios públicos, é muito importante. O exemplo da Estação Ciências é notável. E recentemente a Estação Júlio Prestes. Praticamente todas as cidades do interior têm um espaço público abandonado e não aproveitado. A recuperação desses espaços, sobretudo para utilização como museu de ciências, é algo que deveria ser prioritário nas comunidades.

Os centros de ciência surgiram mais recentemente, fortemente influenciados por um movimento pedagógico de aprendizado em ação, e pelo impacto do desenvolvimento científico e tecnológico. São exemplares como centros de ciências o Exploratorium em San Francisco, California, e o Ontario Science Center, em Toronto, ambos criados em 1969, ano em que os primeiros astronautas caminharam na superfície da Lua. Desde então os centros de ciência vem proliferando em todos os países. Geralmente organizados com custo muito menor que os museus e com amplas oportunidades de fazer, de mexer, os centros de ciência vem se revelando o ideal como um espaço parceiro do espaço escolar.

Os centros de ciência geralmente respondem à motivações originárias da comunidade. Eles estão mais relacionados ao dia-a-dia que os museus. Assim, questões ambientais, próprias a uma comunidade, encontram no centro de ciências, espaço adequado para serem parte de uma atividade. E podem ser o ponto de partida para uma ação comunitária [6]. Dificilmente esse espaço existiria nos museus.

Também os parques temáticos podem ser vistos como variantes dos museus de ciência. Sítios de fósseis, como o dos dinossauros situado em Peirópolis, Uberaba, MG, e várias reservas ecológicas, são exemplos de parques temáticos. Intimamente relacionado com os parques temáticos está o turismo ecológico. Com a expansão da indústria do turismo, mais e mais oportunidades de visitas a grandes parques passa a ser uma opção educacional. Cabe aos sistemas escolares incorporar isso nos seu currículos. Por exemplo, uma semana de visita à Pedra do Baú, na Serra da Mantiqueira, poderia se constituir no foco de todo um semestre de atividades escolares. O argumento do custo elevado de tal programação é falso. Devidamente planejado, com escolha adequada de lugares, essas atividades seriam perfeitamente assimiladas no orçamento de uma escola.

Sem qualquer insinuação de cinismo, a visita a um grande lixão nas comunidades pode ser enquadrada na modalidade parque temático e turismo ecológico.

Com o grande desenvolvimento e interesse pela tecnologia, parques temáticos modelados na Disneilândia estão proliferando. São empreendimentos altamente lucrativos, associados a um turismo cada vez mais acessível. Isso começa a proliferar no Brasil. O Beto Carrero World está permanentemente lotado. E outros parques similares começam a ser anunciados. Todos tem uma forte presença de tecnologia. O aproveitamento desses ambientes como espaços educacionais é algo que não pode ser rejeitado.

Do mesmo modo, não deve ser rejeitado o trabalho sobre filmes e programas de televisão focalizados na tecnologia. Muito pelo contrário, deve ser foco de reflexões sobre ciência e tecnologia, no estilo do que propus no início deste trabalho. A ficção científica, que se assemelha em muito ao conceito de museu, é igualmente algo a ser trabalhado. A criação de situações fictícias, trabalhar com hipóteses imaginadas, é um excelente introdução aos estudos de ciência.
Sabemos que a criança nasce com talento científico, manifestado nas capacidades de observar, comparar, classificar, experimentar, interpretar acerto e erro, descobrir, e muitas outras. Cabe ao educador de ciências estimular essas capacidades.

Como chegar ao adulto, que muito provavelmente estará desatualizado com relação aos avanços científicos? O papel da criança como informante de conhecimento moderno para os país é o melhor veículo para difusão do conhecimento científico. O papel dos museus como auxiliar nessa missão é inestimável. A visita de família aos museus é algo a ser estimulado e complementado pelas atividades na escola.






NOTAS


[1] Um número recente (vol. 128, n. 3, Summer 1999) da prestigiosa revista Dædalus, órgão da American Academy of Arts and Sciences, é inteiramente dedicado ao tema "America’s Museums".

[2] Mihaly Csikszentmihalyi: Education for the Twenty-First Century, Dædalus 124 (4), Fall 1995.

[3] Ver a esse respeito a tese de doutoramento de Regina Luzia Corio de Buriasco: "Avaliação em Matemática: um estudo das respostas de alunos e professores", Universidade Estadual Paulista, Campus de Marília, 1999.

[4] Menciono a dissertação de Mestrado em Ensino de Ciências (UNICAMP/1981) de Bonifácio Pires Franklin, intitulada "Criação e Implementação do Museu de Ciências Naturais da Universidade Federal do Piauí", orientada por Fernando Dias de Ávila Pires.

[5] É interessante uma visita ao site http://www.museo.unimo.it/labmat

[6] Em 1983 orientei na UNICAMP a dissertação de Mestrado em Ensino de Ciências de José Maria Gurgel intitulada "Uma Experiência para o Ensino de Ciências, levando em conta a realidade sociocultural do nordeste brasileiro." Essencialmente, foi a análise da implementação de um centro de ciências situado num espaço ecológico de Cajazeiras, Paraíba.
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Ubiratan D'Ambrosio - Poços de Caldas, 1 de julho de 1969